segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A caneta

Entrou no quarto e trancou a porta.
Se escorou, e a parede a ajudou a segurar o peso que estava em seus ombros.

A bolsa, que ainda não havia largado, guardava o peso maior do que acabara de cometer, de dentro dela algo muito forte e doloroso saía, um cheiro enjoativo do qual ela tinha há pouco se familiarizado.

-Quanto sangue. Meu Deus...

Não sabia ao certo o que sentir, porque o vazio tomara conta dela desde o instante em que desferiu o primeiro golpe no tórax de sua vítima. Ela forçava seus braços a empurrar aquela caneta conta o lugar exato do coração que deixou de amá-la. Ele já estava morto há muito tempo, mas apareceu o impulso de ferí-lo de alguma forma.

Então, a caneta.

E depois, a vontade maior e maior de fazê-lo acordar para pedir perdão por matá-lo desse jeito. Ela não deveria, não queria, mas impulsos não pedem, não perguntam. Simplesmente acontecem. A ferocidade com que ela fez aquilo, foi tanta que  a fez desmaiar ao lado daquele corpo sem vida, desde a primeira gota de veneno.

Acordou desejando ter tido um pesadelo, mas na verdade, estava encharcada com o sangue dele.

Levantou-se num grande susto, e desde então, tem feito as coisas assustada.

Banhou-se, esfregou o corpo com o pequeno sabonete de motel, como se quisesse tirar de si a mancha da culpa do que fizera, quase arrancando a própria pele.

Se recompôs e saiu do quarto como se nada tivesse acontecido, seu disfarce era irreconhecível, uma máscara de tranquilidade assustadora, de um monstro que, segundo ela, acabara de nascer.
Expulsou as lembranças e foi limpar a caneta, lavou-a e enxugou. Junto com a água suja do ralo foi sua culpa, nada provaria que foi ela, em sua irracionalidade, ela estava livre de pagar por aquilo.

Dias se passaram.

A investigação daquela morte já estava quase encerrada porque não se sabia quem era a mulher que saíra do quarto, o disfarce era perfeito, as câmeras não revelariam a verdade.
Como de praxe, todas as pessoas próximas à vítima foram chamadas para depor. Ela também foi chamada, sua aproximação era tão óbvia, que a esposa dele já não se importava mais. Todos sabiam que ela era só uma dentre várias.

Na porta de delegacia, um tremor tomou conta de seu corpo, mas seguiu em frente. Lá dentro o delegado a fez esperar, ficou por último.
Ela se saiu tão bem, que sorria ao ver a crença do delegado em sua mentira.

- Tudo bem, minha senhora, agora só falta assinar seu depoimento. Vejo que não há nada mais que deva fazer aqui.

Pegou a caneta que o delegado deu, mas só conseguiu rabiscar a primeira letra do nome, a caneta falhou. Ninguém conseguia encontrar outra caneta, então ela abriu a bolsa e pegou uma caixinha oval revestida com um veludo preto. Ali jazia uma certa caneta, da qual ela não ousava se livrar. Um golpe de reflexo a fez pegá-la sem pensar em mais nada, como se ela realmente não tivesse feito nada com a caneta.
Mas esta também falhou e, o delegado se ofereceu para consertar a caneta pois, segundo ele, já tinha tido uma igual.

No mesmo instante, ela lembrou-se do medo de ser reconhecida como assassina, e empalideceu. Entregou a arma, e o que a incriminava estava nas mãos dele.
O delegado sem notar, abria a caneta explicando:

- Eu já tive uma dessa; cara não é? O problema...

Dentro dela se revelou a culpa. Um pequeno aglomerado de sangue coagulado estava preso na caneta.
O delegado reconhecia sangue em todas as suas formas e reconheceu também a mentira. Juntou peças e o quebra cabeças se completou.

Ela sentiu o gosto da morte naquele naquele instante.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Nada

Minhas palavras,
meus beijos,
meus carinhos,
minhas lágrimas,
cada suspiro,
cada abraço,
tudo o que agente faz,
tudo o que agente diz,
quando agente se olha,
quando eu te admiro,
tudo.
E nada.
Nenhuma dessas coisas consegue suprir os piscares de olhos
que não são ao seu lado, que não são com você.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O que é sonho?

Eu tenho muitos sonhos.
  Sei disso porque me perco várias vezes em realizações imaginárias, contando pra mim mesma, como seria se uma idéia momentânea que eu gosto acontecesse. Ou passo muito tempo antes de dormir planejando cada passo do dia seguinte, de um banho até uma entrevista de emprego.
  Como se não bastasse essa coisa de sonhar acordada com coisas que eu gostaria muito que acontecessem, sonho ao invés de dormir e minhas noites se tornam cansativas ao invés do que elas deveriam ser.
Acho que vivo ao contrário.
  Durmo para entrar em ação nas aventuras sem rumo da minha consciência e acordo para sonhar com o que eu queria para minha vida. E no final, me sinto uma confusão.
  Não me sinto diferente das outras pessoas, sei que muitas vivem por aí do mesmo jeito que eu, buscando sempre idealizar o melhor para suas vidas.
  Mas sei que há um limite, que se impõe a nós cada vez que tiramos nossos pezinhos do chão e nos deixamos levar por um ou outro lapso exagerado das nossas imaginações.
   Então, sonhar é só imaginar, querer. O resultado disso, eu gosto de chamar de realidade.